Durante quase todo o ano, a discussão no mercado girou em torno de quando o Federal Reserve começaria a cortar juros. Em setembro, a pergunta virou outra: e se o próximo movimento for para cima?
A taxa americana está em 3,50% a 3,75% e ficou parada por cinco reuniões seguidas. Na reunião de julho, três membros do comitê votaram por elevar a taxa em 0,25 ponto. Não é ruído: é a maior dissidência em favor de aperto que se vê em anos, e mudou a leitura do mercado.
Por que a inflação não cedeu como o roteiro previa
A resposta curta é energia. O conflito no Oriente Médio pressionou a oferta e empurrou os preços de combustível, e esse choque atravessou a cadeia de custos. O núcleo da inflação recuou dos picos de 2021 e 2022, mas parou acima da meta de 2% e não deu sinal de continuar caindo.
O restante da economia americana não ajuda quem torcia por corte. A atividade segue firme, o investimento em capital está forte, a produtividade cresce e o desemprego pouco se moveu. Faltam, em resumo, os sinais de fraqueza que normalmente justificam afrouxamento monetário.
O que isso faz com os spreads de crédito
Aqui vale separar duas coisas que costumam ser confundidas. Uma alta de juros mexe na taxa livre de risco, o que pressiona o preço dos títulos já emitidos. Isso é marcação a mercado e afeta quem precisa vender antes do vencimento.
O spread de crédito é outra história. Ele reflete o risco da empresa, e num ambiente de atividade sólida e lucro corporativo saudável, esse prêmio tende a permanecer comportado. Foi o que aconteceu nos últimos meses: o custo de dinheiro subiu, o prêmio de risco das boas empresas não acompanhou na mesma proporção.
Para quem já tem posição montada, juro alto por mais tempo significa marcação desconfortável no curto prazo. Para quem está comprando agora, significa entrar com cupom melhor. É o mesmo fato com dois sinais opostos, e o que define qual deles vale para você é o horizonte.
Como estamos posicionados
Reduzimos duration na parte longa da curva desde o meio do ano, porque não faz sentido carregar sensibilidade a juros num momento em que o risco assimétrico é de alta. Em compensação, aumentamos peso na parte intermediária, entre três e sete anos, onde o prêmio hoje é mais generoso em relação ao risco assumido.
Na seleção de emissores, mantivemos a preferência por empresas com geração de caixa previsível e pouca necessidade de rolar dívida no curto prazo. Empresa que precisa refinanciar volume grande num ambiente de juro alto é justamente onde o problema costuma aparecer primeiro.
O que observar daqui para frente
A reunião de 16 de setembro é o evento óbvio, mas o mais informativo virá depois: a linguagem do comunicado e a distribuição das projeções dos membros do comitê. Um único aumento pontual tem efeito limitado. Uma sinalização de que o ciclo de aperto foi retomado muda o cálculo de duration de todo mundo.
O segundo ponto de atenção é o petróleo. Se o Oriente Médio se estabilizar e a energia recuar, boa parte da pressão inflacionária sai do sistema sozinha, sem que o Fed precise fazer nada. É o cenário que ninguém consegue prever, e por isso mesmo não deveria ser a base de nenhuma carteira.