O Copom cortou a Selic de 14,25% para 14,00% em agosto. Foi o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto, e o mercado espera mais um na reunião de setembro, levando a taxa para 13,75%.
Parece um ciclo de afrouxamento. Na prática, o dinheiro no Brasil continua caríssimo.
O ritmo diz mais que o número
Cortes de 0,25 ponto são a forma que um banco central tem de dizer que está desconfortável. Quando a inflação está claramente sob controle e a atividade pede estímulo, o passo costuma ser maior. O passo curto sinaliza que o Banco Central quer espaço para parar caso algo saia do lugar.
O que pode sair do lugar tem nome. Primeiro, o fiscal: a trajetória de dívida segue pressionada e ano eleitoral raramente ajuda a conter gasto. Segundo, o câmbio: se o real perder força, parte da inflação volta pela porta das importações. Terceiro, o próprio cenário externo, já que um Federal Reserve mais duro reduz o espaço de qualquer emergente para cortar juros.
O juro real, que é o número que importa
Com a Selic em 14% e a inflação projetada abaixo disso, o juro real brasileiro segue entre os mais altos do mundo. Para quem investe em renda fixa local, parece ótimo. E é, até você lembrar de duas coisas.
A primeira é que juro real alto por tempo prolongado não é sinal de economia saudável. É o prêmio que o investidor exige para financiar um país com risco fiscal. A segunda é que esse prêmio vem inteiramente em reais, na mesma moeda em que estão o seu salário, o seu imóvel e o seu negócio.
Concentrar patrimônio em renda fixa local significa apostar duas vezes no mesmo resultado: que a taxa continue alta e que a moeda se comporte. São riscos correlacionados, e correlação é exatamente o que diversificação deveria eliminar.
Onde entra a renda fixa global
Não se trata de escolher entre Brasil e exterior. A Selic a 14% é uma oportunidade concreta e faz sentido carregar posição local enquanto ela existir.
O ponto é que a decisão de quanto ficar fora do país não deveria depender de qual taxa está mais alta neste trimestre. Deveria depender de quanto do seu patrimônio você aceita que fique exposto a uma única moeda e a uma única equação fiscal, especialmente às vésperas de uma eleição.
Um portfólio com parcela relevante em crédito corporativo global em dólar não rende necessariamente mais que o CDI todo mês. Ele muda a natureza do risco: você deixa de depender só do Brasil dar certo.